Entrevista

“A política é a arte de resolver problemas.”

Mandato, Bahia e futuro. Adolfo Viana fala sobre o método de trabalho, as pautas em Brasília e o que move sua atuação pela Bahia, do interior à capital.

Retrato de Adolfo Viana
Adolfo Viana
Deputado Federal · Bahia · PSDB
Brasília · 2026
Leitura · 8 min

No gabinete em Brasília, entre uma sessão e outra, o deputado federal Adolfo Viana recebe a reportagem. O tom é o mesmo que ele leva às ruas da Bahia: direto, centrado nas pessoas e nos resultados. A seguir, os principais trechos.

O método

O senhor costuma dizer que a política é a arte de resolver problemas. O que isso quer dizer na prática?

Aprendi isso acompanhando meu pai pelo interior da Bahia, ainda muito novo. Ele era deputado e nunca virava as costas para o pedido que chegava. Eu vi, de perto, que mandato bom é mandato que resolve. Quando você resolve um problema pequeno, está fazendo boa política. Quando resolve um grande, da mesma maneira. O que não pode é ficar indiferente ao pedido de quem confiou em você. A política, para quem a exerce com responsabilidade, é a maior oportunidade que existe de transformar a vida das pessoas.

E quando não dá para resolver?

Aí entra a parte mais difícil, e a mais importante. O político é falível como qualquer ser humano. Quando consigo resolver, fico feliz. Quando não consigo, tenho a obrigação de olhar a pessoa e dizer que não vou conseguir. Gerar expectativa sabendo que não vai entregar é a pior coisa que um político pode fazer. Eu não faço promessa. Dificilmente assumo um compromisso com algo que não esteja na minha mão. Porque quando você quebra a confiança, ela nunca mais se restabelece. Na política, a confiança é tudo.

A política, para quem a exerce com responsabilidade, é a maior oportunidade que existe de transformar a vida das pessoas.

A Bahia e o interior

Noventa por cento da sua votação vem do interior. Como se trabalha por essas cidades?

Estando onde as decisões acontecem. Eu vou toda segunda para Brasília e volto na quinta, e digo com tranquilidade: o momento em que eu mais trabalho pelas cidades do interior é justamente quando estou em Brasília. Visitar o interior é uma delícia, você reencontra os amigos, ouve as demandas. Mas é em Brasília que se tira o sonho do papel, que se consegue o recurso para a saúde, a educação, a infraestrutura.

Nem sempre o deputado mais visto na cidade é o que mais entrega?

Exatamente. Presença na foto é uma coisa, trabalho é outra. O que transforma uma cidade é o que você traz de Brasília: vai de um poço artesiano que muda a vida de uma família que vive da agricultura até a reconstrução de um hospital que atende um município inteiro. Quando você é votado numa cidade, só existe uma forma de retribuir essa confiança: trazendo o investimento que transforma a vida dela. É o que me move.

O senhor foi reconduzido com 123 mil votos. O que esse número representa?

Responsabilidade, antes de tudo. Foram 32 mil na primeira eleição, 62 mil na segunda, 103 mil na terceira e 123 mil na quarta. Esse crescimento não me envaidece, me cobra. Só tem uma forma de crescer na política: trabalhando com seriedade e dando resultado para quem confiou o voto. O reconhecimento das urnas é o maior combustível que existe, e a maior cobrança também.

O mandato e as entregas

Tem uma entrega que o senhor guarda com orgulho especial?

A Travessia Urbana de Juazeiro, a antiga Ponte Picolé. Foi uma obra destravada a muitas mãos. Fui ao Ministério dos Transportes mostrar a importância dela, e a resposta foi direta: era preciso refazer o projeto e garantir reserva no Orçamento. A partir dali, trabalhamos muito. Hoje a obra avança e logo será inaugurada.

Conta um bastidor dessa articulação que o público não vê.

Depois de alinhar o que precisava ser feito, fui ao relator do Orçamento e pedi 30 milhões para iniciar a obra. Estava tudo certo, e tempos depois veio o aviso de que a reserva não seria mais possível. Pedi uma audiência, fui recebido, e expliquei uma coisa só: aquela obra não atendia apenas Juazeiro, atendia uma região inteira e o estado da Bahia. Ele se convenceu e fez a reserva. É assim que funciona. A emenda não é favor. Quando é bem apontada, transforma a vida de quem está na ponta.

Adolfo Viana em reunião da Federação PSDB Cidadania
Articulação no Congresso pela Federação PSDB Cidadania.

O senhor pode explicar, de forma simples, o que é uma emenda parlamentar?

É um espaço no Orçamento que o parlamentar aponta para fazer a coisa acontecer. Pense na reforma de um hospital no interior: o prefeito não tem o recurso, o estado não tem condição de ajudar, e a obra fica parada. O parlamentar consegue a emenda, o prefeito entra com a contrapartida, e a obra sai do papel. É um auxílio para as prefeituras realizarem o que não cabe no orçamento municipal. Bem apontada, ela transforma.

Por que a saúde ocupa tanto espaço no seu mandato?

Porque é onde a dor é maior. Aqui na Bahia, as pessoas sofrem com a fila da regulação. Quando a cidade do interior não dá conta do serviço de saúde, a vida da pessoa mais humilde fica dificílima. Recebo pedidos todos os dias: uma cirurgia, um tratamento, um remédio. Toda oportunidade que tenho de alocar recurso na saúde, eu aloco. Porque é de cortar o coração ver um baiano precisar de atendimento e não poder contar com ele. A gente não resolve tudo, mas se dedica ao máximo, sempre.

Brasília, articulação e o centro

Qual a diferença entre ser deputado estadual e federal?

A responsabilidade é a mesma, a escala é outra. O estadual legisla sobre as pautas do estado. O federal precisa ter visão de Brasil, porque o que se vota na Câmara impacta os 27 estados. Em um único dia, a gente vota mais de 20 matérias. Você precisa de uma equipe muito focada por trás, porque um equívoco no detalhe pode impactar a vida de milhões de brasileiros.

O PSDB escolheu o senhor para liderar a bancada. O que muda?

Aumenta a responsabilidade. Lidero um partido com quadros experientes: ex-governadores, ex-prefeitos, deputados de muitos mandatos. Cabe a mim distribuir os deputados nas comissões e nas relatorias importantes. É um privilégio trabalhar com gente preparada e comprometida com o interesse do povo.

Na política, o que pesa mais: discurso ou articulação?

A articulação é o que tira a coisa do papel. O discurso importa, porque você precisa mostrar o que pretende fazer e convencer. E eu não tenho problema nenhum em ser convencido: quando o argumento é bom, mudo de opinião com naturalidade. Brasília está precisando disso, de serenidade para tratar de pauta séria.

O senhor se incomoda com a polarização.

Me incomoda porque ela paralisa. A esquerda puxa para um lado, a direita para o outro, e os dois esquecem que existe uma avenida de centro, equilibrada, que quer o que há de bom dos dois lados para o Brasil voltar a andar. É nessa avenida que eu trabalho. Ninguém constrói nada sozinho. A Bahia precisa de quem soma, não de quem divide.

As pautas

Como o senhor avalia a chamada “taxa das blusinhas”?

É um caso que mostra a complexidade da decisão. A indústria nacional reclama, com razão, que não é justo ser mais tributada do que quem importa sem tributo. Por outro lado, quando você taxa, o mercado nacional, em vez de baixar o preço e ganhar competitividade, às vezes eleva o preço. Eu dou um exemplo que me incomoda, o do setor aéreo: as empresas convenceram a Câmara, com dados, de que cobrar bagagem baratearia a passagem. A Câmara aprovou. Elas passaram a cobrar a bagagem e não baixaram a passagem. A lição é essa: a Câmara não é infalível. É preciso ter a grandeza de voltar atrás e corrigir quando a decisão não beneficia a população.

E a redução da jornada para a escala 5 por 2?

Sou a favor, é necessária e urgente, e vou votar favorável. Mas o governo precisa fazer o dever de casa e desonerar a folha das empresas e das prefeituras. Senão o risco é perder emprego formal, que vira informal. A mudança vai acontecer, e tem que acontecer com calibragem perfeita, com atenção especial à pequena e média empresa e às prefeituras. O que se pretende bom para o trabalhador hoje não pode tirar o emprego dele amanhã.

Dois anos depois, qual o balanço da regulamentação das apostas?

Primeiro é preciso esclarecer o que se fez. Antes, as apostas funcionavam no Brasil sem controle e sem fiscalização. De 2018 a 2023, o Campeonato Brasileiro já era patrocinado por sites de aposta, e nenhuma dessas empresas era sediada aqui. Estavam em paraíso fiscal, sem gerar tributo e sem fiscalização. Nós não liberamos o jogo. Nós regulamentamos algo que já existia há anos, dando ao Estado brasileiro a capacidade de fiscalizar e de cobrar tributo dessa atividade.

O senhor apresentou o Perpe para proteger os exportadores afetados pelo tarifaço. Como funciona?

O tarifaço veio num momento muito delicado. O norte da Bahia é o maior produtor de frutas do Brasil, e fruta é perecível: com a tarifa, ela ficou inviável para o mercado americano, e isso ameaçava uma quebradeira geral. Fui provocado por presidentes de associações e cooperativas, e apresentamos o projeto para amenizar o prejuízo. No fim as coisas se acomodaram, mas o prejuízo daquele momento foi real, e é dever do parlamentar proteger quem produz e gera emprego no estado.

A reforma tributária prevê cashback para as famílias do Cadastro Único, e o senhor apresentou projeto que proíbe tarifa sobre transferências para esse mesmo público. As duas medidas se complementam?

Sem dúvida. Quando você oferece o cashback só para a família de menor renda, o retorno vai exatamente para quem mais precisa. O benefício global acaba beneficiando também quem não precisa. O benefício localizado faz diferença real no orçamento mensal da família humilde. É política social com endereço certo.

Os jovens e o futuro

Que mensagem o senhor deixa para o jovem que olha a política com desconfiança?

Que essa desconfiança não pode virar afastamento. Ela é, na verdade, a porta de entrada. Não dá para ficar na arquibancada só criticando. A política é para quem quer assistir ou para quem quer jogar? É para quem quer participar. Ou você participa, ou se submete a ela do jeito que está. Quem tem opinião e não a exercita para transformar perde a chance de contribuir. E a juventude, que é mais inquieta, é justamente quem tem mais força para mudar o que precisa mudar.

O senhor faz política pensando em quem?

No garoto de dez anos, que vai encontrar o Brasil daqui a dez anos. Faço política olhando para a frente, sem esquecer de olhar para trás, para o legado que recebi e o que a minha geração precisa deixar. É com esse nível de compromisso que se exerce um mandato. O futuro não é abstrato. Ele tem a cara de uma criança que está crescendo agora.

O homem por trás do mandato

Fora da política, o que sustenta o senhor?

A fé e os valores que trouxe de casa. Sou de família católica, devoto de Nossa Senhora Aparecida, e começo e termino todos os dias agradecendo a Deus e pedindo proteção. Mas a minha fé eu exercito olhando para as pessoas: com humildade, com respeito, cuidando de quem mais precisa. Não mudei com a política, continuo a mesma pessoa que aprendeu dentro de casa que a gente respeita para ser respeitado. A minha família é a base de tudo, e é por ela, e pela Bahia, que eu não posso decepcionar.

A minha jornada vai seguir sem muros e com muitas pontes, para quem quiser conversar e construir.

Depois de quatro mandatos, que marca o senhor quer deixar?

A de alguém que foi acessível. Que lutou, trabalhou por entregas importantes para o estado, mas que, acima de tudo, escutou as pessoas com seriedade e deu a resposta com o mesmo compromisso. Tenho uma história na política e não me recordo de ter construído um único inimigo, porque pensar diferente nunca fez de ninguém meu adversário, e ser adversário nunca me impediu de sentar à mesa e encontrar solução. A minha jornada vai seguir sem muros e com muitas pontes, para quem quiser conversar e construir. No fim do dia, é isso que importa: o melhor resultado possível para a Bahia. Vamos em frente.

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